domingo, 17 de julho de 2011
Uma caixinha de surpresas
Uma caixinha de surpresas
O estresse dessa rotina cotidiana nos deixa cansado, por isso no fim de semana resolvi passear sem destino pelas ruas da cidade, dirigindo em velocidade cadenciada, quero ser um observador dos detalhes arquitetônicos da cidade.
Tantas árvores decoram a avenida e perto do aeroporto um grande avião parecia que ia cair sobre mim, mas continuei mesmo assim. Contornei uma grande ponte toda raiada que a Globo insiste em mostrar e quando parei no farol, que o passeio realmente começou a me interessar.
Uma grande tenda foi montada para chamar a atenção e ninguém se interessava em olhar, porém o farol ficou vermelho e eu tive que parar. Várias pessoas com caixinhas estranhas na mão caminhavam até os carros e pareciam fazer mágicas para as pessoas, porém distante eu não conseguia entender.
Entre eles havia uma garotinha com uma caixinha marrom na mão que correu até mim, fiquei curioso para saber que mágica ela ia fazer, então entreguei toda a minha atenção a ela que falou:
- Você quer ver a minha caixinha de surpresa?
- Quero!
- Tome! Pega ela e abre.
Abri a caixinha e não tinha nada, mas quando retornei meu olhar para a garotinha, ela tinha se transformado e estava com o rosto todo maquiado e pintado instantaneamente como uma palhacinha.
- Como você fez isto?
- É segredo! Quer uma surpresa muito maior?
- Quero!
- Então me devolve a caixinha!
Ela virou de costas para mim, abriu a caixinha, assoprou dentro dela, depois fechou e entregou outra vez em minha mão. Abri novamente a caixinha e não tinha nada dentro. Olhei novamente para a garotinha e nada tinha mudado, pois ela continuava com o rostinho pintado de palhacinha, então falei:
- Sua mágica falhou! Nada aconteceu!
- Você tem certeza! Então olha o seu rosto.
Eu olhei no espelho do carro e não acreditei no que vi. Meu rosto estava pintado com uma maquiagem que expressava a figura de um palhaço feliz.
Você fez as suas surpresas. Agora é a minha vez! Estacionei o carro. Tirei um sapo manuseado por cordões e participei com ela naquela festa da arte.
Ela corria no meio dos carros na frente, enquanto eu a seguia com o meu sapo pulando e fazendo Ploc! Ploc! Sempre atrás dela, até a festa acabar. Ela fazia mágicas com sua caixinha enquanto meu sapo pulava na cabeça dela. Ela ria e ele pulava nos ombros dela, depois pulava no teto do carro e via sua impressionante habilidade de realizar mágica.
A noite chegou e toda aquela brincadeira maravilhosa da arte acabou. Até hoje não sei se a mágica estava na caixinha ou nas mãos daquela menininha, só sei que a festa terminou. A grande tenda foi desmontada e todos os artistas se despediram e foram embora levando na bagagem seus segredos.
Na hora da despedida resolvi lhe fazer uma última surpresa. Ajoelhei na frente dela para ficar da mesma altura porque ela era pequenininha e falei:
- O sapo chorão está chorando porque ele quer ir embora com você. Leve ele para você caixinha de surpresa! Ela agarrou o sapo com tanto amor, abraçou e apertou, depois falou:
- Eu também vou te fazer uma última surpresa! Ela virou de costas para mim, assoprou na caixinha, depois fechou, virou e me entregou.
Imediatamente eu abri a caixinha e nada aconteceu. Tudo estava praticamente igual, nada mudou. Ela falou: Adeus Ziii! Depois foi embora correndo com o sapo chorão nos braços para o carro dos pais, me deixando com a caixinha mágica de surpresa na mão.
Fiquei surpreso, pois não aconteceu nada e eu fui o último a sair do local. Porém quando eu entrei no meu carro e olhei no espelho tive outra grande surpresa, pois meu rosto voltara ao normal. A pintura de palhaço havia sumido, dando a impressão de que eu estava mergulhado em um sonho e nada havia acontecido, porém eu continuava com a caixinha de surpresas na minha mão.
Eu nunca consegui fazer uma mágica com aquela caixinha, mas a guardo com carinho, pois com certeza tem alguma surpresa escondida dentro dela.
Fui embora seguindo por aquela grande ponte iluminada e pensando: Que surpresa feliz!
ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
sábado, 9 de julho de 2011
Um palhaço com olhos de vidro e o gato preto
Um palhaço com olhos de vidro e o gato preto
Na madrugada gelada, as gotas frias do sereno trazidas pelo vento batem no rosto daquele andarilho solitário que procura um abrigo para dormir. Ele já caminha com dificuldade por sentir dores nos pés congelados e o vento cortando seu corpo causa calafrios momentâneos que o fazem tremer. As gotas geladas misturadas ao vento frio parecem queimar a pele daquele caminhante solitário da rua deserta.
O asfalto molhado começa a ficar perigoso, então ele caminha com cuidado para não escorregar, pois há poucas luzes acesas, isso deixa a visão turva e enganosa.
De repente um gato preto cruza o seu caminho e ele para por ser extremamente supersticioso. Agora ele ficou com receio de continuar a caminhada por essa rua, pois pode trazer azar e se tornar perigoso, então resolveu mudar o caminho. Entrou em outra rua, a qual também estava totalmente deserta e continuou caminhando com dificuldades.
A solidão da noite fazia qualquer movimento parecer assustador e no meio da neblina misturada ao sereno ele avistou uma pessoa sentada na calçada. Foi um momento que o deixou confuso entre desconfiança e medo, porém não tinha como voltar atrás, então ele continuou caminhando com o olhar atento aos movimentos da pessoa que estava sentada na calçada.
À medida que ele ia se aproximando, percebia que havia alguma coisa estranha naquela pessoa, que agora parecia ser uma criança. O homem parou, olhou com mais atenção e percebeu que a pessoa também olhava para ele, mas parecia um olhar vitrificado de alguém que não tinha vida.
Aquele olhar refletindo a iluminação da rua parecia ser de vidro, esse brilho fazia com que a curiosidade tomasse o lugar do medo, então ele resolveu chegar mais perto. Agora não parece mais uma pessoa e sim um boneco que alguém deve ter abandonado na rua.
O andarilho se aproximava olhando para o boneco enquanto o boneco também olhava para ele. Mais perto e ele percebeu que o boneco era um palhaço de olhos de vidro, porém ao chegar bem próximo um movimento brusco no corpo do palhaço lhe deu o maior susto, um gato preto saltou do colo do boneco e saiu correndo.
Ao ver o gato pular e correr, o homem supersticioso ficou amedrontado e hesitou em continuar, não sabia o que fazer e caminhou em volta do boneco que parecia acompanhá-lo com o olhar.
Confuso com tudo que estava acontecendo, a razão superou o medo e ele se aproximou do palhaço, pegando-o em seus braços, mesmo sendo um boneco com olhos de vidro, seu olhar parecia real e delator de algumas vontades quase impossíveis.
Ele olhava nos olhos de vidro do palhaço e o palhaço olhava nos seus olhos cansados, depois colocou o boneco embaixo do braço e continuou caminhando vagarosamente com os dedos dos pés doendo e duros de frio. Foi nesse momento que ele escutou:
- Você está me machucando!
O andarilho olhou para trás e não viu ninguém, então imaginou ter ouvido coisas. Balançou a cabeça como se estivesse ouvindo coisas sem sentido e continuou caminhando, porém ouviu novamente:
- Você está me machucando!
O homem olhou para o boneco e falou para si mesmo já que não havia mais ninguém naquele local: Preciso descansar. Já estou ouvindo coisas!
E o boneco respondeu:
- Precisa mesmo. Você está um lixo.
O homem olhou atentamente para o boneco, bem próximo daquele palhaço de olhos de vidro e perguntou:
- Quem é você? Quem o abandonou naquela calçada?
- Eu sou a encruzilhada da vida. Sou do mundo de vidro e necessito de um coração ao lado para poder viver e quem me abandonou naquele lugar foi uma pessoa que perdeu o calor do coração.
Ambos admiravam o rosto um do outro. O homem com um olhar cansado observava cada detalhe da pintura de palhaço feita por alguém no rosto daquele boneco, aqueles olhos de vidro que pareciam vivos. Por outro ângulo o boneco estudava faceiramente o rosto cansado daquele homem aparentemente abandonado, barbudo, despenteado, sujo, porém com uma expressão facial de bondade, o boneco percebera nele um coração bom. Seria uma presa fácil.
O homem imaginou que estava sonhando, pois o sonho é como uma caixinha de surpresa que sai do meio de um nevoeiro de imaginações, vontades, desejos e nos transporta para um real imaginário onde temos a sensação de que realmente aconteceu, pois um sonho bem sonhado nos deixa com um sorriso satisfeito de felicidade e com uma vontade louca de sonhar mais, porém como poderia ser um sonho se ele estava frente a frente com aquele palhaço de olhos de vidro. A não ser que fosse um pesadelo. Ele olhou para o boneco e perguntou:
- O que eu faço agora?
- Me leva com você. Ajude-me a viver!
O homem caminhava no meio da neblina fria com o palhaço nos braços e percebia que era seguido pelo gato preto. De repente parou e tentou espantar o bichano.
- Some gato preto! Você traz azar, me dá calafrios e pressentimentos ruins.
O palhaço falou:
- Não é um gato. É uma gata e ela me acompanha aonde eu for. Nosso destino é ficar juntos e foi ela que o trouxe para mim.
O palhaço apontou para um beco escuro, abandonado e falou:
- Aquele é um ótimo lugar para passarmos a noite.
- Naquele beco escuro!
- Pode confiar em mim! Aquele é um abrigo seguro.
O medo às vezes faz o escuro se transformar em um monstro assustador, porém a rua deserta parece não ter fim já que as energias se esgotaram. As pernas não obedecem mais e doem, os pés congelaram, então é melhor descansar naquele beco escuro do que cair na calçada fria e morrer congelado sem forças para reagir.
Ao entrar no beco o andarilho encontrou algumas madeiras secas e acendeu uma fogueira, depois se acomodou no calor do fogo e foi lentamente sendo consumido pelo cansaço e o sono, até que o palhaço falou:
- Você não pode dormir. Tem que ficar acordado. Eu dependo de você para viver, se você dormir, eu morro.
O brilho do fogo, o calor abraçando e convidando para dormir, os olhos de vidro do palhaço refletindo as labaredas e a suplica de suas palavras num pedido de socorro, pedindo o quase impossível para alguém que passara tanto frio. No escuro o brilho dos olhos da gata.
- Eu não consigo ficar acordado!
O fogo aquecendo. O palhaço implorando e os olhos se aproximando.
O homem fecha os olhos se despedindo da vida. O palhaço entra em pânico tentando sobreviver, mas não escuta mais o coração bater e nos seus olhos de vidro o reflexo das patas da gata arranhando.
O dia clareou e da fogueira sobrou só as cinzas, Deitado e com marcas de garras no rosto o homem continua a dormir seu sono eterno com os olhos vitrificados. O palhaço sumiu daquele local levado pela gata ciumenta.
Quando a noite voltar, a gata trará outro coração para que os olhos de vidro do palhaço brilhem novamente, porém sempre ao alcance das suas garras.
ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
sábado, 18 de junho de 2011
Um samurai que veio de longe
Um samurai que veio de longe
Desde pequeno fico imaginando como são as famílias, seus jeitos de agir, costumes, tradição e cultura, porém toda essa salada de idéias chocadas com a realidade social vivida pelas pessoas me faz concluir que somos como peças de dominós enfileiradas, uma a uma, seguindo uma fila invisível que não pode ser furada e cada peça somente pode ser derrubada pela morte, cada um tem seu tempo real para aceitar ou não essas regras impostas pela raiz de linhagem e o direito de transformá-la de acordo com suas próprias verdades ou afeições tanto carnais como espirituais, porém todas nossas verdades se perdem no tempo a partir do momento em que nossa peça é derrubada ficando caída, morta e esquecida para trás.
Há momentos na vida em que a gente sofre um choque cultural, esse impacto é capaz de mudar nossa forma de pensar e decidir sobre nossas crenças adotando nossas próprias verdades. Um dia isso aconteceu comigo e me transformou, fato que penetrou como uma cunha em toda a minha aprendizagem familiar.
Pensando bem, para que a vida evolua é necessária a miscigenação das raças, esta mistura de comportamentos foi a maneira que a vida encontrou para evoluir modificando tradições e costumes de uma sociedade estanque e egoísta.
Somos frutos de tradições diferentes, nascemos, crescemos e absorvemos seus ideais.
Um menino que gostava de correr com seu cachorro pelas ruas, assim eu vivia feliz com a inocência de um garoto que não tinha consciência dos costumes estabelecidos pelos pais e envolvido com ambos formei minha própria cultura, desta forma de viver estabeleci meus próprios limites, sempre amparado no cotidiano do amor familiar.
Certo dia, depois de brincar o dia todo jogando bola na rua de terra, eu voltava para casa totalmente sujo e despretensioso quando fui abordado pela Dona Maria japonesa, ela era uma senhora idosa que me perguntou:
- Paulinho! Você pode me ajudar a ajeitar o meu quintal?
Eu olhei aquele quintal desarrumado, uma bagunça sem fim e aceitei ajudá-la no dia seguinte. Parece até cultura japonesa esse jeito de viver, porém tudo mudou depois de vários dias limpando aquele quintal.
Coisas e coisas jogadas fora, algumas a Dona Maria nem sabia que ainda existiam. Terminamos e a casa ficou linda, parecia até maior e foi nesse momento que a minha cultura também mudou, pois a japonesa velhinha saiu da casa com um quadro na mão, uma obra de arte totalmente artesanal feita de retalhos, no qual havia um guerreiro samurai sentado em um peixe. Ela me deu o quadro e falou:
- Leve esse quadro para você! Eu o fiz no Japão quando tinha nove anos. Era uma tradição de família. Ele traz sorte e paz para junto de nós, mas já estou velha e preciso que alguém cuide dele, para isso acho que você é a pessoa certa. Pegue! Ele agora é seu.
Eu olhei aquele samurai que veio de longe, do outro lado do mar e fiquei muito feliz, não conseguia conter a minha alegria e o levei para casa.
A cultura da família da Dona Maria agora fazia parte da minha cultura. Nem vi os anos passarem e levá-la embora daquela casa, nunca mais eu tive noticias dela, porém sua cultura sempre esteve presente nos meus dias.
Toda vez que olho para aquele samurai pendurado na parede tenho saudades dela e uma sensação de certeza de que o dia será bom, feliz e tranquilo, isso me traz alivio no coração e na alma.
Mesmo depois de muitos anos passados, a cultura que aquela velha senhora trouxe de tão longe, seja da distância do outro lado do mar ou do tempo da sua infância ainda influencia a minha vida, meu jeito de agir, de pensar e de viver.
Zip...Zip...Zip...ZzipperR.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
domingo, 12 de junho de 2011
Luar selvagem
Luar selvagem
A noite fria faz a minha pele arrepiar e a limitação do campo de visão desestabiliza a sensação de segurança, desta maneira temos a impressão de que alguém está nos seguindo e vai nos atacar a qualquer momento. O pior é nunca temos a certeza se o ataque será desse mundo ou do além, pois são criaturas que se aproveitam da escuridão para praticar o mal.
A noite clara trás uma grande lua prateada e essa sensação de medo me faz subir em uma árvore permanecendo quietinho em um galho, do qual consigo avistar a rua de terra sendo engolida pela escuridão densa da mata que me assusta fazendo barulho com o sopro do vento.
Os poderes da lua penetram na mata transformando tudo. Chegou à hora dos predadores saírem para a caça e essa insegurança me deixa em pânico. Mas quem é a presa? Nessa mata escura todos nos transformamos em presa! Cuidado!
A lua maldita lança seus raios em mim e meu corpo começa a arrepiar me transformando em lobo. Finco as garras na árvore e foco meu olhar selvagem na rua de terra à espera de uma vítima, meus olhos vermelhos parecem dois focos de fogo na escuridão e foi nesse momento que ela passou rapidamente como uma gata pela rua e sumiu na mata.
Saltei do galho e fui atrás dela, porém mesmo naquele negrume sombras passavam cruzando o meu caminho. Eu não conseguia definir se eram sombras das nuvens refletidas pela luz da lua ou uma emboscada espreitando a trilha de terra à espera de uma caça.
Num jogo de paciência permaneci estático apenas observando o movimento da mata e num piscar de olhos percebi a gata sair em disparada do seu ponto de camuflagem correndo rua de terra abaixo, logo atrás havia uma sombra a seguindo enquanto eu farejava no ar o cheiro gostoso dela, atento aos movimentos continuei atrás deles, mas mantendo uma distância segura com medo de ser uma arapuca tramada para me capturar.
A escuridão tem o dom de fazer os ponteiros do tempo caminhar lentamente em nossa percepção, com isso as noites parecem mais longas e o cansaço abraça o nosso corpo com braços fortes e quanto mais lutamos contra o sono piores ficam nossos reflexos.
Rapidamente a perdi de vista no meio daquela cortina de neblina misturada com a escuridão. A minha respiração ofegante e cansada diminuía o foco da minha visão e o vento forte e gelado apenas contribuía para atrapalhar a direção a ser tomada. Tanto tempo de perseguição e a noite começou a perder suas forças, assim pude avistar seu esconderijo.
Amanhecia e eu entrava no esconderijo da gata, já me encontrava frente a frente com ela e o dia clareava. Com os olhos fixos em mim ela se aproximou, tocou suas garras em meu rosto e chegou bem próxima da minha boca, eu sentia a sua respiração quente como se aquele lugar fosse o esconderijo do amor, porém eu teria chegado tarde demais.
As gotas de sereno começaram a cair sobre o meu corpo funcionando como antídoto imediato contra minha magia, onde pingava e escorria as gotas o mundo paralelo perdia suas forças dando lugar ao mundo real e a forma humana reaparecia imediatamente. Eu apenas ouvia o som de sinos do lado de fora da gruta, nesse momento confuso apenas a vi correr rua de terra acima e sumir na mata dos sonhos.
Saí da gruta e encontrei uma vaca tranquila em sua caminhada do lado de fora. Ela parecia nem dar atenção ao ocorrido naquele lugar, abracei o lindo animal e caminhei com ele na estrada de terra escutando o tocar do sino amarrado em seu pescoço...Tilim...tilim...tilim...tilim.....
Tem alguma coisa oculta nessa mata, pois havia uma sombra seguindo a gata. Essa conclusão me deixou aflito e com medo sentindo que alguma coisa estava escondida e nos observando. Fiquei com medo. Senti meu corpo arrepiar e falei:
- Melhor sairmos rápido dessa mata....
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Paulo Ribeiro de Alvarenga
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Um pé de Umarizal
Um pé de Umarizal
Naturalmente o tempo modifica o espaço manuseando-o com as mãos da natureza. O material usado na perfeição do acabamento da obra unifica a arte tornando-a excepcional e maravilhosa, um trabalho provido de uma fusão de fenômenos naturais, como a chuva, o sol, a escuridão da noite e a degradação humana.
Um olhar para o sol e a vibração do vento com sua música quase silenciosa abre as cortinas do tempo, os movimentos dessa brisa suavemente gelada desperta a nostalgia da alma abrindo vagarosamente os olhos da memória, que se encontravam inerte durante quase toda a vida.
O destino semeou um espaço em meu caminho, no qual uma semente de Umarizal foi plantada e deu origem a uma grande árvore para que eu escalasse seus galhos em meus devaneios, dando-me a oportunidade de crescer em seus braços.
Sentado em um de seus galhos tornei-me um instrumento do seu poder e meditando como um pássaro fui capaz de me desenhar na grande árvore colhendo suas frutas. Anacé é o grande caule que permanece mesmo depois de tantos anos firme e forte, junto à sua raiz nasceu um pé de jaracatiá que dá vista para um grande campo rodeado de Eçauna, no qual muitos pássaros pousados em suas janelas podem observar tranquilamente e até pousar.
Subo no caule da grande árvore e começo a caminhar nos galhos colhendo frutos diferentes, primeiro alcanço uma Flama, a minha direita colho uma Itamanduaba, estico o braço e pego uma Quipá, subo mais um pouco e avisto uma praça toda enfeitada de Marilia, daquele galho consigo até ver as Colmeias, porém estico o braço para a esquerda e pego uma grande Guaramembé, no topo da árvore uma Maniçoba madura e uma Caranapatuba estragada, me agarro como um menino peralta e desço escorregando pelo pé de Jaracatiá até o chão do grande campo.
Desço na árvore e no tempo me tornando pequeno, revendo na memória as fotografias tiradas pelo meu olhar, fotos tiradas de uma pequena ilha formada com uma vegetação de árvores secas nascidas em uma terra preta. Aquele grande brejo de uma antiga lagoa com fama de assombrada que contorna a ilha está revelado na minha memória. Todo aquele espaço se transforma em um grande pântano capaz de prover aventuras e contar histórias verdadeiras vividas em seu passado. Histórias que foram contadas e não escritas.
Figuras de um passado que estão reveladas em um filme queimado, difícil de revelar, pois mesmo que a gente suba a trilha da Coatinga passando pela Lagoa Branca e entrando pelas Colméias, não se encontra mais a escola de madeira que deveria ter sido tombada como patrimônio histórico de um mundo perdido no tempo, tal qual muitos que caíram da grande árvore e se perderam na neblina evaporando como fumaça. Mesmo entre aqueles que quando meninos jogavam futebol no campinho de terra, ficou a infelicidade de o filme ter sido queimado na memória sem imagem para recordar.
As grandes árvores da praça, a piscina seca, a ilha, o pântano, as histórias de assombração, o campinho de terra, os amigos e a escola de madeira viraram um filme queimado por aqueles que fotografaram com o olhar, porém não foram capazes de revelar na memória. Um passado deixado para trás e excluído no tempo.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
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segunda-feira, 30 de maio de 2011
Caminhando no lado misterioso da vida
Caminhando no lado misterioso da vida
Sonhando acordada num jeito misterioso de viver, ela imaginava um sol enigmático, talvez pelo seu jeito místico de acreditar nas forças externas, tal crença enriquecida em seus objetivos fortalecia mais e mais sua crença na relação futuro e figura, num pacto pessoal centrada e acreditando friamente nos poderes ocultos e atração não só dominadora, mas também previsora como um feche de luz capaz de revelar o que está escrito no mundo escuro do futuro.
Ela percebeu que no movimento intercalado das relações de previsão e realidade, havia uma onda diferenciada de resultados favorecendo um jogo de insinuações providas de impulsos de desejos inseguros e vontades obscuras.
Ela não estava insegura, apenas balançava a cabeça e as mãos relaxando a tensão do corpo e da mente após receber as previsões contidas nas cartas.
Se outra pessoa me contasse, eu não acreditaria, mas foi ela que me contou, já que não era um sonho e sim uma maneira de manusear o desconhecido, um meio sedutor e curioso de ultrapassar os obstáculos descartadores que estão escondidos no universo ao mesmo tempo sedutor e cruel, no qual estamos localizados querendo pegar tudo que está ao nosso alcance e por outro lado somos focados por outros com o mesmo desejo.
As dúvidas na vida da garota começaram a partir do momento em que ela conheceu uma velha cartomante, que era uma mulher serena no equilíbrio das palavras, porém trazia um olhar astuto como de uma raposa na guarda da sua ninhada.
Os segredos evocados na leitura das cartas eram profundos, carregados e temperados num tom do além, parecendo ser produto de uma força maior que a própria verdade, ou seja, trazia um poder sobrenatural de colher fontes futura como se estivesse colhendo frutos maduros em uma árvore da vida.
Olhando aquelas cartas compridas e velhas sendo manuseadas pelas mãos hábeis daquela cartomante parecem ser inofensivas e mesmo parecendo estar segura naquela consulta divinamente proibida, alguma coisa a assustava, pois aquelas cartas compridas e velhas pareciam ter sido usadas por uma eternidade de tempo, já que estavam gastas, desbotadas e até rasgadas.
Que poderes estariam escondidos naquelas figuras? Uma vez que era impossível escolher a carta previsora do destino, mesmo porque elas eram retiradas aleatoriamente, uma a uma, tal quais os dias que com suas diferenças envolve-nos em suas instabilidades.
Pensar que os conflitos da vida dela começaram em cartas embaralhadas por uma cartomante seria um erro, primeiro que não eram simples cartas, não tinha como duvidar, tudo estava escrito nelas. Segundo porque a velha cartomante lia cada detalhe e o que mais impressionava era que em cada carta havia uma figura diferente da lua descrevendo e desvendando os sentidos da vida dela em suas várias faces e fases.
Os dias rolam como a lua e esse girar constante às vezes nos deixa tontos, uma tontura parecendo quase proposital, na qual a lua com sua força magnética influi indiretamente nas nossas vidas por meio dos dias , nos conduzindo intercaladamente expostos às forças do bem ou do mal e para termos consciência de tal condução momentânea que nos domina, basta fazer uma reflexão momentânea pessoal.
A solidão e o desencanto fazem com que ela se afastasse das cartas, mas o coração a trouxe de volta, pois a paixão traidora traz em sua calda uma carência insaciável de atenção, desestabilizando momentaneamente os compassos do coração. Os dias escurecem em tempestades de dúvidas, embriagando com dificuldades e cambaleando nos passos antes firmes, porém agora medrosos e inseguros.
Há tempos ela não recorria às cartas, mas esta insegurança no amor gerou um estado de desconfiança insuportável, no qual o ciúme corrói os pensamentos e as atitudes, consequentemente toda essa agonia a levaram de volta às mãos da velha cartomante.
Se antes o local era assustador, agora é muito mais, pois parecia estar esquecido pelo mundo, já que havia apenas uma mesa e pouca luz, nem as cortinas eram abertas, porém não era isso que interessava à garota, ela queria informações além da sua visão.
A velha cartomante sentou-se calmamente à mesa, serena e com toda a tranquilidade abriu a gaveta e pegou as velhas cartas misteriosas. No exato momento em que as cartas foram pegas, algumas caíram de sua mão sendo imediatamente ignoradas pela mulher, como se não fizessem parte do destino ou fossem descartadas pelo próprio futuro.
As velhas cartas são embaralhadas tranquilamente como se tudo já estivesse previamente escrito. A primeira carta é retirada e colocada sobre a mesa, nela estava estampada a lua plena e bela, cheia de vida entre as nuvens e uma rareada neblina. Ela faz uma pequena observação na carta e interpreta em poucas palavras:
- Houve um pequeno espaço de tempo em que você permaneceu sozinha e reservada, mesmo assim estava radiante e feliz, porém agora quer abrir as cortinas do futuro.
Outra carta foi retirada e colocada na mesa, uma carta velha e rasgada faltando um pedaço. Nesta carta a lua mostrava apenas metade do rosto, parecia manter-se escondida observando a figura de um sol com raios frios e congelados.
- Você está apaixonada por alguém, porém a distância impede de sentir o seu calor.
- Está faltando um pedaço da carta. Como vou saber o que estava nesse pedaço?
- A carta é explícita e clara. Essa parte você já conhece, ou seja, é a terceira figura.
- Então é certo que existe a terceira figura?
- Você sabe a resposta, agora vou virar a última carta.
Outra carta rasgada faltando um pedaço, nela a lua estava crescente e brilhante, o sol timidamente lançava raios de calor sobre ela, porém faltava quase metade da carta.
- Ele gosta de mim?
- gosta.
- E o restante da carta? Como vou saber o que tinha na parte que falta?
- A carta é transparente nos segredos da vida, se não é mostrado, é porque você sabe o que está lá.
- Leia mais uma. Por favor!
- Não posso! Se eu fizesse isso, estaria traindo o meu pacto com o futuro oculto.
Ao levantar da mesa uma carta caiu da mão da velha cartomante, talvez por dificuldade e deficiência dos movimentos das mãos idosas e doentes. Ela imediatamente falou para a garota:
Não pegue essa carta! Porém a garota aproveitando a oportunidade rapidamente se apossou da carta e quando olhou, viu que havia apenas a figura da lua, o sol havia desaparecido de seu futuro.
Ela olhou profundamente para os olhos da velha cartomante e falou:
- A senhora é uma mentirosa! Eu não acredito nessas cartas velhas e rasgadas. Eu devia jogá-las no lixo. Depois se levantou, pegou sua bolsa e saiu apressadamente daquela casa misteriosa e escura. Ela caminhou durante um tempo e resolveu voltar para pagar e pedir desculpas.
Num pensamento confuso em idéias embaralhadas ela voltou à velha casa, ao chegar encontrou apenas a casa velha e abandonada. Não havia ninguém na casa. Qual seria a verdade de tudo aquilo?
Sem encontrar ninguém, ela foi embora caminhando pela calçada, na qual se encontrava uma mulher velha pedindo esmolas, passou sem dar atenção, depois parou, pensou e voltou. Ao chegar àquela senhora, tirou dinheiro da bolsa e entregou nas mãos dela dizendo:
- Aqui está o pagamento da consulta às cartas. Agradeceu e foi embora.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
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terça-feira, 26 de abril de 2011
O encanto do canto

O encanto do canto
Coisas, coisas e coisas fazem a nossa vida rolar e tudo em nossa volta são frutos dos nossos próprios pensamentos, já que somos dotados de tão valiosa habilidade e a desperdiçamos inutilmente banalizando o que pensamos.
A imaginação é capaz de ultrapassar as barreiras do sonho, do impossível, do ridículo e dar uma oportunidade visual ao lado cego do mundo.
Que mundo é esse capaz de enxergar a imaginação e quem são as pessoas que habitam esse universo invisível?
Podemos dizer que seja um canto cheio de encanto onde o ser humano em seu inconsciente contrariando suas próprias vontades seja um formador de uma cadeia de labirintos mentais.
Em minha memória escuto o canto de uma sereia que um dia virou estrela e mesmo sem pensar ela continua presente no meu mundo, num canto profundo e inconscientemente fazendo meus olhos brilhar na busca de seu brilho permanecendo eternamente com os olhos elevados ao céu à sua procura. Naquele mar azul recheado de estrelas te procuro e só a encontro nas minhas memórias favoritas.
As palavras da minha poesia não rimam, nem brilham, apenas giram gritando comigo em meu labirinto, porém são mudas para esse mundo fechado que é um enorme labirinto de massa humana.
Ouço a sereia cantando distante! Me chamando! Seu canto de amor não faz parte do sonho e me faz acordar, correr para a janela e no meio da noite procurá-la naquele universo azul e escuro, iluminado apenas pelas estrelas com suas luzes distantes. Eu sei que você está escondida entre elas, piscando, brilhando e num momento inesperado risca o céu deixando um rastro momentâneo de luz, que guia meus olhos até você. Te vejo e fico feliz.
Tudo se passa num canto da imaginação, onde escuto o seu canto no nosso canto de sonhos, você canta me chamando e eu não encontro a saída do meu labirinto para encontrá-la.
As fotografias da minha memória levam a sua marca, marcadas me fazem sonhar e logo essa fronteira é ultrapassada, desta maneira a imaginação flui como uma chave de confiança entre nós, abrindo as portas para um labirinto imaginário, no qual na realidade nunca conseguimos entrar, apenas criar e apreciar.
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paulo Ribeiro de Alvarenga
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