sábado, 6 de agosto de 2011
O mistério do arco-íris
O mistério do arco-íris
Parece uma lenda, mas não é! Mesmo tendo acontecido no meio de uma mata fechada, onde uma gigantesca cachoeira exigiria movimentos da cabeça de seus admiradores para enxergar o início visual da quedas de suas águas.
A mata selvagem se esforçava ao máximo com seus galhos e cipós trançados para evitar a entrada de intrusos, porém um dia suas defesas foram violadas, foi quando pela primeira vez uma garota usando um vestidinho estampado com lindas flores de pétalas gateadas pisou em suas pedras se envolvendo com os segredos ocultos da cachoeira, os quais permanecem guardados junto à história do grande arco-íris.
Num amanhecer quente de uma manhã de verão a grande cachoeira ecoava uma canção eterna de amor lançando suas águas sobre as pedras. Ela tentava jogar suas águas o mais longe possível e nessa tentativa via suas águas se perderem formando uma neblina levada pelos braços do vento, que num sereno cristalizado umidificava as folhagens, saciando a sede e dando vida à mata nativa.
A grande cachoeira percebe a garota de cabelos longos e negros chegando como uma índia selvagem para invadir suas águas. A menina de olhos castanhos caminha pelas pedras até chegar ao pé da cachoeira. Com os braços erguidos para o céu ela fecha os olhos permanecendo imóvel e parada, apenas sentindo seus cabelos serem molhados e a água gostosa escorrendo pela sua pele morena molhando o seu vestido florido que passa a grudar nos relevos do seu corpo.
Toda molhada! Ela grita palavras de amor à natureza agradecendo pela sua esplendorosa beleza. O eco dos seus gritos, por mais alto que seja! Não conseguem ultrapassar os limites da natureza e são consumidos pela mata selvagem, ocultando do mundo os segredos do arco-íris.
A menina poesia olha em sua volta e vê a cachoeira jogar águas sobre a pedra que ela está. Formando um lindo arco-íris à sua volta. Não tendo como se defender ela viu suas cores se misturarem às do arco-íris, que desafiado lança ao mundo o mágico das cores.
As águas são lançadas violentamente sobre as pedras fazendo um barulho ensurdecedor, essa queda furiosa das águas chocando sobre as pedras dão origem a um gigantesco arco-íris. Nele surge o mágico das cores saindo vultuosamente daquela névoa densa e chegando como um banho de cores. Um vulto que penetra e atravessa seu corpo. Sem perceber o que está acontecendo, ela misteriosamente passa a fazer parte do corpo do mágico, inacreditavelmente viva e estampada em sua capa.
As pessoas da pequena cidade logo avistaram aquele grande arco-íris que se formara saindo da mata selvagem. Das suas cores surgiu um personagem extremamente estranho usando uma cartola colorida, nas costas vestia uma grande capa vermelha com uma garota viva estampada nela. À medida que ele caminhava, a garota observava a curiosidade das pessoas. Ela movimentava os olhos e a cabeça observando tudo o que estava acontecendo, porém ao vê-la presa àquela capa vermelha as pessoas ficavam estáticas, com medo e assustadas. Na mão esquerda do mágico havia um pequeno rinoceronte. O qual ele usava como um fantoche para atrair o foco da atenção das pessoas.
Seu caminhar era lento. Atencioso e detalhista e com pequenos movimentos do seu rinoceronte fazia tudo que estava a sua volta criar cores. Mesmo as almas que insistiam em viver na escuridão tinham seus momentos coloridos. Os corações das pessoas batiam mais vermelhos deixando a tonalidade da pele muito mais corada. As plantas abriam suas flores com pétalas coloridas e a beleza se fazia presente fazendo em tão pouco espaço de tempo um mundo feliz.
Os habitantes descrentes daquela cidade imaginavam: O que aquele louco estaria fazendo ali? Ignorantes sobre a misteriosa beleza expressada em cores resolveram confrontá-la e destruí-la. Em cada passada o mágico cultivava amor, atrás dele seguiam apressados os escravos do tempo, cegos e incapazes de enxergar tal beleza e em cada passo dado destruíam a expressão bela da arte plantada pelo mágico.
O mágico apontava seu rinoceronte na direção das pessoas e elas imediatamente se assustavam, porém era uma reação momentânea, pois logo eram seduzidos pelo lado belo da vida num mundo cheio de cores. O mágico das cores com seu rinoceronte à frente desafiava o abandono do mundo, não aceitava o desrespeito com a natureza e insistentemente lançava seu arco-íris ao céu para que as cores não fossem esquecidas.
Da capa a menina poesia observava tudo e se indignava com a atitude destrutiva dos escravos do tempo cegos para a arte e incapazes de ver cores. Eles seguem destruindo toda a magia da poesia e caminham mais rápido que o mágico apagando suas cores.
Os raios solares ardentes sinalizavam que era a hora de partir e salvar o mágico daquela doença sem cura. A menina apaixonada por versos agora também era apaixonada pelas cores e se sentia incapaz, já que tinha apenas palavras como armas.
Aos olhares de todos. As cores foram perdendo a força e clareando, pouco a pouco ficando transparentes. O mágico já não tinha as pernas para andar, logo não tinha as mãos para colorir, junto com o seu rinoceronte e com sua capa vermelha pulsando amor pelas batidas do coração da menina poesia foi levado de volta para o seu ninho, que ficava ao pé da grande cachoeira escondida no meio da mata nativa. Inesperadamente uma grande quantidade de água caiu sobre a menina de cabelos longos, que já não estava mais estampada na capa do mágico e sim sobre um pequeno rochedo liso. Não conseguindo se equilibrar, ela foi lançada ao lago de águas frias.
Ela olhou ao pé da grande cachoeira, onde as águas encontram o solo e havia um arco-íris em circulo parecendo cansado e dormindo, por isso a menina saiu em silêncio, levando o segredo com ela e certa de que não adiantaria mostrar a grande cachoeira ao mundo, pois nem todos teriam capacidade de ver sua beleza, o que faria os cegos da arte não verem sentido de preservação e começarem a destruí-la.
Zzipperr
Paulo Ribeiro de Alvarenga
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Um cheiro gostoso de flor
Um cheiro gostoso de flor
O dia nublado clareou e lá está ela, uma rosa solitária que adora tomar banho de chuva abrindo suas pétalas em um jardim rodeado de margaridas.
A linda rosa vermelha poderia se sentir melhor que as outras moradoras daquele jardim, porém seu verdadeiro sentimento é de amor e por estar apaixonada sua cor é vermelha. Às vezes ela pensa que seria melhor ser uma rosa amarela misturando-se às belas margaridas já douradas com suas pétalas queimadas pelos raios ardentes do sol, tanto que ela apenas queria viver feliz no meio daquelas lindas margaridas espalhadas pelo canteiro e se espalhar também sem ser notada formando uma sociedade ocasionalmente estabelecida pelas mãos da vida.
As passadas medrosas nos caminhos secretos do subconsciente, ocasionalmente nos encorajam a sair do nosso modo cotidiano e aprisionado de viver rompendo o labirinto dos ideais e naufragando profundamente no desejo da felicidade.
Toda vez que abro a porta do sonho sou capaz de enxergar a liberdade e saborear o gosto doce de ser feliz, nesse desejo é que invado seu jardim e partilho o meu sonho com o seu. Atravesso a porta e sinto o vento tocar o meu rosto como se fosse as suas mãos, agitando os meus cabelos e me convidando a correr na fantasia em devaneios absolutamente distante do real.
O grande jardim é onde sempre começamos a sonhar. Coloco meus olhos no sonho e já a avisto de vermelho no meio daquela onda de flores ao vento, envolvida na cor dominante do amor.
Colho a rosa vermelha que está no meio do jardim e corro para você, nela está o poder do nosso desejo, uma rosa para a minha estrela vermelha que faz de mim seu grande caçador, pois brilhando em meu sonho ela me ensinou a sonhar, brincar, voar e amar, fazendo meus olhos brilharem.
Sou um escravo da arte, um eterno apaixonado pelas formas do corpo, dos relevos dos seios, da cor dos olhos, da felicidade no sorriso e da beleza proporcionada pela alegria que vem de dentro quando se está amando.
O canto da minha sonhadora me convida a sonhar. Um canto de uma menina que vem de longe, um canto misterioso e gostoso de amor que vem me buscar como o canto de uma sereia das flores, navegante de um lindo jardim de sonhos onde encontro ela a me esperar.
- Bom dia menina linda! Eu trouxe um morango vermelhinho para você saborear. Sinta o prazer dessa fruta do amor que traz o formato do coração, ela é capaz de alegrar o seu dia e deixar esse seu cheirinho de flor muito mais gostoso.
- Você sempre me traz flores e hoje trouxe um morango tão lindo e saboroso quanto o nosso sonho. Quando não te encontro sou devorada pela saudade, fico escrava e presa na solidão que só acalma caminhando no meio desse jardim de flores, apenas consolada pela toada de uma música doce. Eu adoro ganhar flores!
Entro no seu sonho e você está linda com os olhos pequenininhos de sono. Será que você ficará feliz com esse morango tão pequenininho de presente? E se você não estiver pensando em mim!
Imediatamente ouço seu grito me chamando na estrada, correndo em minha direção, me agarrando, caminhando, namorando, voando, voando, voando.
A menina dos meus olhos refletida no meu olhar, no meu pensar e que não me deixa raciocinar, pois não tem medo de nada e permanece sentada na mesma estrada sabendo que eu vou voltar. Ela é a menina de olhos castanhos do sonho de um contador de histórias. Ele sabe que ela estará sempre esperando no mesmo lugar, por isso traz uma flor amarela para enfeitar o cabelo dela.
Chega um momento em que tudo fica quieto, silencioso e sem ação e ela fala:
- Você não entende! Eu sou uma menina flor, bela, silenciosa, linda, atraente e carrego comigo o dom do amor. Estou sempre te esperando no nosso caminho mágico com um cheiro gostoso de flor, enquanto você não vem escrevo poesias de amor.
As águas selvagens de um rio invadem o nosso mundo dizendo que é hora de ir, logo a frente há uma bifurcação que não entende o nosso coração, agita o nosso sonho e não nos deixa sonhar. Por favor, não me acorde! Volte para o meu sonho e deixe-me sentir seu cheiro gostoso de flor novamente.
ZziperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
domingo, 17 de julho de 2011
Uma caixinha de surpresas
Uma caixinha de surpresas
O estresse dessa rotina cotidiana nos deixa cansado, por isso no fim de semana resolvi passear sem destino pelas ruas da cidade, dirigindo em velocidade cadenciada, quero ser um observador dos detalhes arquitetônicos da cidade.
Tantas árvores decoram a avenida e perto do aeroporto um grande avião parecia que ia cair sobre mim, mas continuei mesmo assim. Contornei uma grande ponte toda raiada que a Globo insiste em mostrar e quando parei no farol, que o passeio realmente começou a me interessar.
Uma grande tenda foi montada para chamar a atenção e ninguém se interessava em olhar, porém o farol ficou vermelho e eu tive que parar. Várias pessoas com caixinhas estranhas na mão caminhavam até os carros e pareciam fazer mágicas para as pessoas, porém distante eu não conseguia entender.
Entre eles havia uma garotinha com uma caixinha marrom na mão que correu até mim, fiquei curioso para saber que mágica ela ia fazer, então entreguei toda a minha atenção a ela que falou:
- Você quer ver a minha caixinha de surpresa?
- Quero!
- Tome! Pega ela e abre.
Abri a caixinha e não tinha nada, mas quando retornei meu olhar para a garotinha, ela tinha se transformado e estava com o rosto todo maquiado e pintado instantaneamente como uma palhacinha.
- Como você fez isto?
- É segredo! Quer uma surpresa muito maior?
- Quero!
- Então me devolve a caixinha!
Ela virou de costas para mim, abriu a caixinha, assoprou dentro dela, depois fechou e entregou outra vez em minha mão. Abri novamente a caixinha e não tinha nada dentro. Olhei novamente para a garotinha e nada tinha mudado, pois ela continuava com o rostinho pintado de palhacinha, então falei:
- Sua mágica falhou! Nada aconteceu!
- Você tem certeza! Então olha o seu rosto.
Eu olhei no espelho do carro e não acreditei no que vi. Meu rosto estava pintado com uma maquiagem que expressava a figura de um palhaço feliz.
Você fez as suas surpresas. Agora é a minha vez! Estacionei o carro. Tirei um sapo manuseado por cordões e participei com ela naquela festa da arte.
Ela corria no meio dos carros na frente, enquanto eu a seguia com o meu sapo pulando e fazendo Ploc! Ploc! Sempre atrás dela, até a festa acabar. Ela fazia mágicas com sua caixinha enquanto meu sapo pulava na cabeça dela. Ela ria e ele pulava nos ombros dela, depois pulava no teto do carro e via sua impressionante habilidade de realizar mágica.
A noite chegou e toda aquela brincadeira maravilhosa da arte acabou. Até hoje não sei se a mágica estava na caixinha ou nas mãos daquela menininha, só sei que a festa terminou. A grande tenda foi desmontada e todos os artistas se despediram e foram embora levando na bagagem seus segredos.
Na hora da despedida resolvi lhe fazer uma última surpresa. Ajoelhei na frente dela para ficar da mesma altura porque ela era pequenininha e falei:
- O sapo chorão está chorando porque ele quer ir embora com você. Leve ele para você caixinha de surpresa! Ela agarrou o sapo com tanto amor, abraçou e apertou, depois falou:
- Eu também vou te fazer uma última surpresa! Ela virou de costas para mim, assoprou na caixinha, depois fechou, virou e me entregou.
Imediatamente eu abri a caixinha e nada aconteceu. Tudo estava praticamente igual, nada mudou. Ela falou: Adeus Ziii! Depois foi embora correndo com o sapo chorão nos braços para o carro dos pais, me deixando com a caixinha mágica de surpresa na mão.
Fiquei surpreso, pois não aconteceu nada e eu fui o último a sair do local. Porém quando eu entrei no meu carro e olhei no espelho tive outra grande surpresa, pois meu rosto voltara ao normal. A pintura de palhaço havia sumido, dando a impressão de que eu estava mergulhado em um sonho e nada havia acontecido, porém eu continuava com a caixinha de surpresas na minha mão.
Eu nunca consegui fazer uma mágica com aquela caixinha, mas a guardo com carinho, pois com certeza tem alguma surpresa escondida dentro dela.
Fui embora seguindo por aquela grande ponte iluminada e pensando: Que surpresa feliz!
ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
sábado, 9 de julho de 2011
Um palhaço com olhos de vidro e o gato preto
Um palhaço com olhos de vidro e o gato preto
Na madrugada gelada, as gotas frias do sereno trazidas pelo vento batem no rosto daquele andarilho solitário que procura um abrigo para dormir. Ele já caminha com dificuldade por sentir dores nos pés congelados e o vento cortando seu corpo causa calafrios momentâneos que o fazem tremer. As gotas geladas misturadas ao vento frio parecem queimar a pele daquele caminhante solitário da rua deserta.
O asfalto molhado começa a ficar perigoso, então ele caminha com cuidado para não escorregar, pois há poucas luzes acesas, isso deixa a visão turva e enganosa.
De repente um gato preto cruza o seu caminho e ele para por ser extremamente supersticioso. Agora ele ficou com receio de continuar a caminhada por essa rua, pois pode trazer azar e se tornar perigoso, então resolveu mudar o caminho. Entrou em outra rua, a qual também estava totalmente deserta e continuou caminhando com dificuldades.
A solidão da noite fazia qualquer movimento parecer assustador e no meio da neblina misturada ao sereno ele avistou uma pessoa sentada na calçada. Foi um momento que o deixou confuso entre desconfiança e medo, porém não tinha como voltar atrás, então ele continuou caminhando com o olhar atento aos movimentos da pessoa que estava sentada na calçada.
À medida que ele ia se aproximando, percebia que havia alguma coisa estranha naquela pessoa, que agora parecia ser uma criança. O homem parou, olhou com mais atenção e percebeu que a pessoa também olhava para ele, mas parecia um olhar vitrificado de alguém que não tinha vida.
Aquele olhar refletindo a iluminação da rua parecia ser de vidro, esse brilho fazia com que a curiosidade tomasse o lugar do medo, então ele resolveu chegar mais perto. Agora não parece mais uma pessoa e sim um boneco que alguém deve ter abandonado na rua.
O andarilho se aproximava olhando para o boneco enquanto o boneco também olhava para ele. Mais perto e ele percebeu que o boneco era um palhaço de olhos de vidro, porém ao chegar bem próximo um movimento brusco no corpo do palhaço lhe deu o maior susto, um gato preto saltou do colo do boneco e saiu correndo.
Ao ver o gato pular e correr, o homem supersticioso ficou amedrontado e hesitou em continuar, não sabia o que fazer e caminhou em volta do boneco que parecia acompanhá-lo com o olhar.
Confuso com tudo que estava acontecendo, a razão superou o medo e ele se aproximou do palhaço, pegando-o em seus braços, mesmo sendo um boneco com olhos de vidro, seu olhar parecia real e delator de algumas vontades quase impossíveis.
Ele olhava nos olhos de vidro do palhaço e o palhaço olhava nos seus olhos cansados, depois colocou o boneco embaixo do braço e continuou caminhando vagarosamente com os dedos dos pés doendo e duros de frio. Foi nesse momento que ele escutou:
- Você está me machucando!
O andarilho olhou para trás e não viu ninguém, então imaginou ter ouvido coisas. Balançou a cabeça como se estivesse ouvindo coisas sem sentido e continuou caminhando, porém ouviu novamente:
- Você está me machucando!
O homem olhou para o boneco e falou para si mesmo já que não havia mais ninguém naquele local: Preciso descansar. Já estou ouvindo coisas!
E o boneco respondeu:
- Precisa mesmo. Você está um lixo.
O homem olhou atentamente para o boneco, bem próximo daquele palhaço de olhos de vidro e perguntou:
- Quem é você? Quem o abandonou naquela calçada?
- Eu sou a encruzilhada da vida. Sou do mundo de vidro e necessito de um coração ao lado para poder viver e quem me abandonou naquele lugar foi uma pessoa que perdeu o calor do coração.
Ambos admiravam o rosto um do outro. O homem com um olhar cansado observava cada detalhe da pintura de palhaço feita por alguém no rosto daquele boneco, aqueles olhos de vidro que pareciam vivos. Por outro ângulo o boneco estudava faceiramente o rosto cansado daquele homem aparentemente abandonado, barbudo, despenteado, sujo, porém com uma expressão facial de bondade, o boneco percebera nele um coração bom. Seria uma presa fácil.
O homem imaginou que estava sonhando, pois o sonho é como uma caixinha de surpresa que sai do meio de um nevoeiro de imaginações, vontades, desejos e nos transporta para um real imaginário onde temos a sensação de que realmente aconteceu, pois um sonho bem sonhado nos deixa com um sorriso satisfeito de felicidade e com uma vontade louca de sonhar mais, porém como poderia ser um sonho se ele estava frente a frente com aquele palhaço de olhos de vidro. A não ser que fosse um pesadelo. Ele olhou para o boneco e perguntou:
- O que eu faço agora?
- Me leva com você. Ajude-me a viver!
O homem caminhava no meio da neblina fria com o palhaço nos braços e percebia que era seguido pelo gato preto. De repente parou e tentou espantar o bichano.
- Some gato preto! Você traz azar, me dá calafrios e pressentimentos ruins.
O palhaço falou:
- Não é um gato. É uma gata e ela me acompanha aonde eu for. Nosso destino é ficar juntos e foi ela que o trouxe para mim.
O palhaço apontou para um beco escuro, abandonado e falou:
- Aquele é um ótimo lugar para passarmos a noite.
- Naquele beco escuro!
- Pode confiar em mim! Aquele é um abrigo seguro.
O medo às vezes faz o escuro se transformar em um monstro assustador, porém a rua deserta parece não ter fim já que as energias se esgotaram. As pernas não obedecem mais e doem, os pés congelaram, então é melhor descansar naquele beco escuro do que cair na calçada fria e morrer congelado sem forças para reagir.
Ao entrar no beco o andarilho encontrou algumas madeiras secas e acendeu uma fogueira, depois se acomodou no calor do fogo e foi lentamente sendo consumido pelo cansaço e o sono, até que o palhaço falou:
- Você não pode dormir. Tem que ficar acordado. Eu dependo de você para viver, se você dormir, eu morro.
O brilho do fogo, o calor abraçando e convidando para dormir, os olhos de vidro do palhaço refletindo as labaredas e a suplica de suas palavras num pedido de socorro, pedindo o quase impossível para alguém que passara tanto frio. No escuro o brilho dos olhos da gata.
- Eu não consigo ficar acordado!
O fogo aquecendo. O palhaço implorando e os olhos se aproximando.
O homem fecha os olhos se despedindo da vida. O palhaço entra em pânico tentando sobreviver, mas não escuta mais o coração bater e nos seus olhos de vidro o reflexo das patas da gata arranhando.
O dia clareou e da fogueira sobrou só as cinzas, Deitado e com marcas de garras no rosto o homem continua a dormir seu sono eterno com os olhos vitrificados. O palhaço sumiu daquele local levado pela gata ciumenta.
Quando a noite voltar, a gata trará outro coração para que os olhos de vidro do palhaço brilhem novamente, porém sempre ao alcance das suas garras.
ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
sábado, 18 de junho de 2011
Um samurai que veio de longe
Um samurai que veio de longe
Desde pequeno fico imaginando como são as famílias, seus jeitos de agir, costumes, tradição e cultura, porém toda essa salada de idéias chocadas com a realidade social vivida pelas pessoas me faz concluir que somos como peças de dominós enfileiradas, uma a uma, seguindo uma fila invisível que não pode ser furada e cada peça somente pode ser derrubada pela morte, cada um tem seu tempo real para aceitar ou não essas regras impostas pela raiz de linhagem e o direito de transformá-la de acordo com suas próprias verdades ou afeições tanto carnais como espirituais, porém todas nossas verdades se perdem no tempo a partir do momento em que nossa peça é derrubada ficando caída, morta e esquecida para trás.
Há momentos na vida em que a gente sofre um choque cultural, esse impacto é capaz de mudar nossa forma de pensar e decidir sobre nossas crenças adotando nossas próprias verdades. Um dia isso aconteceu comigo e me transformou, fato que penetrou como uma cunha em toda a minha aprendizagem familiar.
Pensando bem, para que a vida evolua é necessária a miscigenação das raças, esta mistura de comportamentos foi a maneira que a vida encontrou para evoluir modificando tradições e costumes de uma sociedade estanque e egoísta.
Somos frutos de tradições diferentes, nascemos, crescemos e absorvemos seus ideais.
Um menino que gostava de correr com seu cachorro pelas ruas, assim eu vivia feliz com a inocência de um garoto que não tinha consciência dos costumes estabelecidos pelos pais e envolvido com ambos formei minha própria cultura, desta forma de viver estabeleci meus próprios limites, sempre amparado no cotidiano do amor familiar.
Certo dia, depois de brincar o dia todo jogando bola na rua de terra, eu voltava para casa totalmente sujo e despretensioso quando fui abordado pela Dona Maria japonesa, ela era uma senhora idosa que me perguntou:
- Paulinho! Você pode me ajudar a ajeitar o meu quintal?
Eu olhei aquele quintal desarrumado, uma bagunça sem fim e aceitei ajudá-la no dia seguinte. Parece até cultura japonesa esse jeito de viver, porém tudo mudou depois de vários dias limpando aquele quintal.
Coisas e coisas jogadas fora, algumas a Dona Maria nem sabia que ainda existiam. Terminamos e a casa ficou linda, parecia até maior e foi nesse momento que a minha cultura também mudou, pois a japonesa velhinha saiu da casa com um quadro na mão, uma obra de arte totalmente artesanal feita de retalhos, no qual havia um guerreiro samurai sentado em um peixe. Ela me deu o quadro e falou:
- Leve esse quadro para você! Eu o fiz no Japão quando tinha nove anos. Era uma tradição de família. Ele traz sorte e paz para junto de nós, mas já estou velha e preciso que alguém cuide dele, para isso acho que você é a pessoa certa. Pegue! Ele agora é seu.
Eu olhei aquele samurai que veio de longe, do outro lado do mar e fiquei muito feliz, não conseguia conter a minha alegria e o levei para casa.
A cultura da família da Dona Maria agora fazia parte da minha cultura. Nem vi os anos passarem e levá-la embora daquela casa, nunca mais eu tive noticias dela, porém sua cultura sempre esteve presente nos meus dias.
Toda vez que olho para aquele samurai pendurado na parede tenho saudades dela e uma sensação de certeza de que o dia será bom, feliz e tranquilo, isso me traz alivio no coração e na alma.
Mesmo depois de muitos anos passados, a cultura que aquela velha senhora trouxe de tão longe, seja da distância do outro lado do mar ou do tempo da sua infância ainda influencia a minha vida, meu jeito de agir, de pensar e de viver.
Zip...Zip...Zip...ZzipperR.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
domingo, 12 de junho de 2011
Luar selvagem
Luar selvagem
A noite fria faz a minha pele arrepiar e a limitação do campo de visão desestabiliza a sensação de segurança, desta maneira temos a impressão de que alguém está nos seguindo e vai nos atacar a qualquer momento. O pior é nunca temos a certeza se o ataque será desse mundo ou do além, pois são criaturas que se aproveitam da escuridão para praticar o mal.
A noite clara trás uma grande lua prateada e essa sensação de medo me faz subir em uma árvore permanecendo quietinho em um galho, do qual consigo avistar a rua de terra sendo engolida pela escuridão densa da mata que me assusta fazendo barulho com o sopro do vento.
Os poderes da lua penetram na mata transformando tudo. Chegou à hora dos predadores saírem para a caça e essa insegurança me deixa em pânico. Mas quem é a presa? Nessa mata escura todos nos transformamos em presa! Cuidado!
A lua maldita lança seus raios em mim e meu corpo começa a arrepiar me transformando em lobo. Finco as garras na árvore e foco meu olhar selvagem na rua de terra à espera de uma vítima, meus olhos vermelhos parecem dois focos de fogo na escuridão e foi nesse momento que ela passou rapidamente como uma gata pela rua e sumiu na mata.
Saltei do galho e fui atrás dela, porém mesmo naquele negrume sombras passavam cruzando o meu caminho. Eu não conseguia definir se eram sombras das nuvens refletidas pela luz da lua ou uma emboscada espreitando a trilha de terra à espera de uma caça.
Num jogo de paciência permaneci estático apenas observando o movimento da mata e num piscar de olhos percebi a gata sair em disparada do seu ponto de camuflagem correndo rua de terra abaixo, logo atrás havia uma sombra a seguindo enquanto eu farejava no ar o cheiro gostoso dela, atento aos movimentos continuei atrás deles, mas mantendo uma distância segura com medo de ser uma arapuca tramada para me capturar.
A escuridão tem o dom de fazer os ponteiros do tempo caminhar lentamente em nossa percepção, com isso as noites parecem mais longas e o cansaço abraça o nosso corpo com braços fortes e quanto mais lutamos contra o sono piores ficam nossos reflexos.
Rapidamente a perdi de vista no meio daquela cortina de neblina misturada com a escuridão. A minha respiração ofegante e cansada diminuía o foco da minha visão e o vento forte e gelado apenas contribuía para atrapalhar a direção a ser tomada. Tanto tempo de perseguição e a noite começou a perder suas forças, assim pude avistar seu esconderijo.
Amanhecia e eu entrava no esconderijo da gata, já me encontrava frente a frente com ela e o dia clareava. Com os olhos fixos em mim ela se aproximou, tocou suas garras em meu rosto e chegou bem próxima da minha boca, eu sentia a sua respiração quente como se aquele lugar fosse o esconderijo do amor, porém eu teria chegado tarde demais.
As gotas de sereno começaram a cair sobre o meu corpo funcionando como antídoto imediato contra minha magia, onde pingava e escorria as gotas o mundo paralelo perdia suas forças dando lugar ao mundo real e a forma humana reaparecia imediatamente. Eu apenas ouvia o som de sinos do lado de fora da gruta, nesse momento confuso apenas a vi correr rua de terra acima e sumir na mata dos sonhos.
Saí da gruta e encontrei uma vaca tranquila em sua caminhada do lado de fora. Ela parecia nem dar atenção ao ocorrido naquele lugar, abracei o lindo animal e caminhei com ele na estrada de terra escutando o tocar do sino amarrado em seu pescoço...Tilim...tilim...tilim...tilim.....
Tem alguma coisa oculta nessa mata, pois havia uma sombra seguindo a gata. Essa conclusão me deixou aflito e com medo sentindo que alguma coisa estava escondida e nos observando. Fiquei com medo. Senti meu corpo arrepiar e falei:
- Melhor sairmos rápido dessa mata....
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Paulo Ribeiro de Alvarenga
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Um pé de Umarizal
Um pé de Umarizal
Naturalmente o tempo modifica o espaço manuseando-o com as mãos da natureza. O material usado na perfeição do acabamento da obra unifica a arte tornando-a excepcional e maravilhosa, um trabalho provido de uma fusão de fenômenos naturais, como a chuva, o sol, a escuridão da noite e a degradação humana.
Um olhar para o sol e a vibração do vento com sua música quase silenciosa abre as cortinas do tempo, os movimentos dessa brisa suavemente gelada desperta a nostalgia da alma abrindo vagarosamente os olhos da memória, que se encontravam inerte durante quase toda a vida.
O destino semeou um espaço em meu caminho, no qual uma semente de Umarizal foi plantada e deu origem a uma grande árvore para que eu escalasse seus galhos em meus devaneios, dando-me a oportunidade de crescer em seus braços.
Sentado em um de seus galhos tornei-me um instrumento do seu poder e meditando como um pássaro fui capaz de me desenhar na grande árvore colhendo suas frutas. Anacé é o grande caule que permanece mesmo depois de tantos anos firme e forte, junto à sua raiz nasceu um pé de jaracatiá que dá vista para um grande campo rodeado de Eçauna, no qual muitos pássaros pousados em suas janelas podem observar tranquilamente e até pousar.
Subo no caule da grande árvore e começo a caminhar nos galhos colhendo frutos diferentes, primeiro alcanço uma Flama, a minha direita colho uma Itamanduaba, estico o braço e pego uma Quipá, subo mais um pouco e avisto uma praça toda enfeitada de Marilia, daquele galho consigo até ver as Colmeias, porém estico o braço para a esquerda e pego uma grande Guaramembé, no topo da árvore uma Maniçoba madura e uma Caranapatuba estragada, me agarro como um menino peralta e desço escorregando pelo pé de Jaracatiá até o chão do grande campo.
Desço na árvore e no tempo me tornando pequeno, revendo na memória as fotografias tiradas pelo meu olhar, fotos tiradas de uma pequena ilha formada com uma vegetação de árvores secas nascidas em uma terra preta. Aquele grande brejo de uma antiga lagoa com fama de assombrada que contorna a ilha está revelado na minha memória. Todo aquele espaço se transforma em um grande pântano capaz de prover aventuras e contar histórias verdadeiras vividas em seu passado. Histórias que foram contadas e não escritas.
Figuras de um passado que estão reveladas em um filme queimado, difícil de revelar, pois mesmo que a gente suba a trilha da Coatinga passando pela Lagoa Branca e entrando pelas Colméias, não se encontra mais a escola de madeira que deveria ter sido tombada como patrimônio histórico de um mundo perdido no tempo, tal qual muitos que caíram da grande árvore e se perderam na neblina evaporando como fumaça. Mesmo entre aqueles que quando meninos jogavam futebol no campinho de terra, ficou a infelicidade de o filme ter sido queimado na memória sem imagem para recordar.
As grandes árvores da praça, a piscina seca, a ilha, o pântano, as histórias de assombração, o campinho de terra, os amigos e a escola de madeira viraram um filme queimado por aqueles que fotografaram com o olhar, porém não foram capazes de revelar na memória. Um passado deixado para trás e excluído no tempo.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
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