domingo, 13 de maio de 2012
Rabiscando nuvens
A última coisa que me lembro é perceber o mundo girando e desequilibrando minha estabilidade, fazendo de mim um ser desgovernado prestes a sofrer um acidente. A percepção se perdeu levando o ponto de equilíbrio e apagando o raciocínio momentâneo.
Os dias passaram e eu não vi. Os ponteiros do relógio giraram se encontrando várias vezes e eu nem percebi. Onde eu estava nesse tempo todo que formou uma caixa de vácuo transformando o meu ser num estado fragmentando sem a sequência das minhas próprias lembranças.
Foi abrir os olhos e novamente ingressar na locomotiva desgovernada da vida que empurra uma geração e descarta a outra como se fosse rascunho de um livro interminável da vida e tudo que foi criado não serve mais para a nova geração.
O que deixa mais confuso o meu pensar é que não há ninguém ao meu lado e já que estou solitário vou repassar fragmentos da minha memória e tentar desvendar instantes antes desse apagão.
Não entendo porque uma frase que um dia um escritor louco chamado ZzipperR escreveu permanece incessantemente refletindo no meu pensar, chega até a cansar. A frase é esta:
“A noite foi feita para os loucos, só eles têm coragem de mergulhar nas profundezas dos sonhos sem medo de errar”
A última coisa que me lembro é estar sentado ao lado de um contador de histórias verídicas acontecidas em uma cidade misteriosa chamada Baguaçu. Ele olhou para o céu e falou:
- Hoje o dia começou lindo! De manhã o céu estava totalmente limpo, logo depois ficou decorado com um fundo de nuvens escamadas muito altas.
Ele falava e eu olhava para o céu, me perdendo na beleza infinita e natural da tela daquele quadro infinito, mas bem produzido e definido parecendo esperar o rabisco de algum desenho, podemos dizer que seria a tela de um quadro pronta e esperando a expressão do artista.
Rapidamente a frase do poeta começou a fazer sentido, então mergulhei nas profundezas do sonho sem medo de errar. Com os olhos fechados segui cada palavra pausada que o velho falava me conduzindo até a tela, onde começamos a rabiscar nuvens.
Primeiro ele rabiscou uma nuvem que criando vida foi levada pelo vento atravessando lentamente aquela longa tela linda e azul. Depois falou: - Tente definir essa nuvem?
- Ela forma a figura de um cachorrinho correndo.
- E esta outra nuvem?
- Essa nuvem trás os traços de uma menina correndo atrás do cachorrinho.
- Agora tente você rabiscar uma nuvem!
Rabisquei a figura de uma menina e perguntei: - Tente interpretar esse quadro? Ele falou:
- É a figura de uma flor.
- Perfeito! Agora tente este e fiz apenas um traço horizontal no céu azul.
- Este é você caminhando em seus pensamentos.
Abri meus olhos e estava sozinho. Não sei se o contador de histórias estava realmente ao meu lado, nem se a cidade misteriosa existia, mas continuei focado profundamente no sonho.
Como posso recordar de uma situação, se tenho dúvidas da realidade? Logo escutei:
- Tente interpretar essas nuvens que estou rabiscando!
O homem tocava o fundo azulado e pequenas nuvens em formato de coração surgiam, depois rabiscou a figura de uma garota.
- Esta é a nuvem do amor!
A cada movimento da nuvem trazida pelo vento ela ficava maior, tão grande que parecia querer me abraçar.
Ele rabiscou uma nuvem escura.
- Esta é a nuvem do ódio!
Quanto mais próxima a nuvem chegava, mais escurecida e assustadora ficava, tão feroz que lançava raios e trovões a uma longa distância.
Foi só o contador de histórias perceber que eu estava assustado, que ele passou a mão no céu e apagou tudo, deixando estampado apenas um azul borrado de nuvens passageiras.
Senti meu rosto queimando pelos raios solares ardentes e abri meus olhos, realmente o homem não estava ao meu lado, mas senti um beijo gostoso de alguém que estava sentada bem juntinha a mim falando:
- Você está levando a frase desse poeta muito a sério, melhor não penetrar tão profundamente no sonho, pois você pode se perder nele e não encontrar o caminho de volta. Isso poderia me deixar muito triste sabia!
- Refletindo bem na frase do poeta, chego à conclusão de que eu realmente sou um louco.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
Criador de vaga-lumes
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Momento mágico
Momento mágico
No palco da vida atuamos em nossos papéis diários, num texto cotidiano onde tudo muda a todo o momento. No texto que a vida escreve com a habilidade de um mestre, nos reserva surpresas boas e más, porém um dia Deus reservou uma inesquecível para mim e para a Abelhinha.
A arte é mágica e nós somos dois palhaços atuando com amor, assim a nossa força do amor atraiu um momento mágico, reservando as pessoas certas para nosso espetáculo.
A Abelhinha chegou voando com um convite na mão, pedindo que fizéssemos uma festa surpresa para umas crianças no dia das crianças. Como somos palhaços aceitamos imediatamente, porém pediam que fôssemos vestidos de palhaços.
No dia do espetáculo eu vesti de palhaço e a Abelhinha vestiu de palhacinha com uma maquiagem maravilhosa, pois não sabíamos quem eram as crianças e fomos de coração aberto para o palco que aquele dia a vida nos reservou.
Nossas mochilas estavam carregadas com pirulitos e os bonecos para divertir as crianças e ensiná-las a viajar no mundo da magia com o carinho e a habilidade que a arte proporciona.
Colocamos tudo dentro do carro e seguimos para o local definido apenas com o endereço. Não sabíamos mais nada, éramos dois palhaços lançados à sorte no palco da vida pela arte.
Chegando ao lugar indicado tremi, pois era uma casa beneficente de crianças especiais. Um desafio para grandes atores, o momento de mostrar que sabemos atuar e para isso tivemos que entrar no mundo deles, sair do nosso mundo materialista, individualista e mergulhar no amor, no carinho e na atenção de crianças brilhantes.
Olhei para a Abelhinha, aquela linda palhacinha, toquei com a minha mão em seu rosto, demos um beijo de palhaços e eu falei:
- A hora é essa! O show vai começar:
Facilitamos o máximo possível para que as crianças participassem do espetáculo e começamos a pintar o rosto delas. Os meninos com bolinhas coloridas e as meninas com flores brilhantes e lindas. Cada rosto maquiado saia daquele mundo e voava na arte, transformando- se em verdadeiros artistas, porém um garoto deficiente visual se aproximou da abelhinha e falou:
- Eu quero ser palhaço também.
- Então você será um lindo palhacinho. Ela fez uma maquiagem maravilhosa nele e eu sentia que alguma coisa especial estava para acontecer.
A Abelhinha os ensinava a fazer arte com bexigas, fazendo cachorrinhos, capacetes, corações e pássaros. Elas chegavam a gritar de felicidade enchendo as bexigas coloridas. Quase chorei vendo a atenção e o amor deles pelos que não tinham possibilidades de chegar até as bexigas. Eles compartilhavam a alegria e a felicidade, levando bexigas para os outros e chegou a hora da história com os bonecos.
Eles participaram ajudando a montar o palco e depois de tudo montado, um deles veio até mim e falou:
- Palhaço! Deixa-me ser um boneco?
Olhei e vi que ele era um deficiente visual e não enxergava nada.
- Deixo! Mas vou te ensinar. Preste atenção!
- Segura essa madeira. Você vai manusear o boneco na história, segura com a mão esquerda no canto do palco para você controlar a distância. Você vai ser o personagem principal e se eu falar: O menino está saindo da casa, você volta com ele para o palco. Certo?
- Certo!
A Abelhinha participava de cada movimento do garoto, desde a preparação até no ato da cena falando para ele assim:
- Quando o palhaço começar a contar a história, você manuseia o boneco como você imaginar que é a cena.
A história era ouvida com atenção! Pareciam vivê-la! Estar dentro da história e o garoto manuseava a marionete como se fosse ele, como se estivesse enxergando e durante o transcorrer da história, não saiu com o boneco uma vez do palco, parecia viver naquele espaço há anos.
O espetáculo terminou e eles fizeram questão de guardar os bonecos com cuidado e atenção, como se estivessem guardando algo precioso, que invadiu seus corações e suas lembranças para sempre. Após terminarem o garoto deficiente visual me abraçou e falou:
- Palhaço! Como é o nome do boneco da história? Você não falou o nome dele nenhuma vez, apenas falava que ele colecionava folhas.
- Ele não tem nome. Pode ser qualquer um, até você.
- Eu queria que ele tivesse um nome.
- Certo! Então você coloca um nome nele.
- Eu queria que ele tivesse o meu nome.
- Vamos colocar um nome nele. Qual é o seu nome?
- Jesus.
- De hoje em diante, o colecionador de folhas se chamará Jesus.
Agora vamos nos despedir estourando bexigas, que é para dar sorte e a gente voltar aqui mais vezes.
Todos começaram a estourar bexigas numa gritaria de felicidade inexplicável, com seus rostos maquiados, numa cena teatral, sem ensaios e numa atuação perfeita que o espetáculo da vida proporcionou.
Antes de ir embora falei:
- Agora vocês também são atores e podem fazer seus próprios espetáculos, basta deixar a imaginação fluir e a história sairá junto proporcionando o espetáculo perfeito.
- Vamos Abelhinha! Chegou a hora de voar, pois hoje a alma está mais leve e pura, carregada de carinho e amor puro.
O palhacinho se despediu tocando o meu rosto como se estivesse desenhando em um papel, depois tocou o rosto da Abelhinha, sorriu e se despediu.
Saímos daquele lar, deixando os atores atuando no palco e nós éramos apenas telespectadores da vida que acabaram de assistir um grande e excelente espetáculo, levando como bagagem experiência, ensinamentos e lição de vida, provando que a felicidade está além do que imaginamos.
Obrigado arte! Por mais esse momento mágico.
Um beijo de palhaços.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
Criador de vaga-lumes
Para iluminar pensamentos
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Caminhando no lado misterioso da vida
Caminhando no lado misterioso da vida
Sonhando acordada num jeito misterioso de viver, ela imaginava um sol enigmático, talvez pelo seu jeito místico de acreditar nas forças externas, tal crença enriquecida em seus objetivos fortalecia mais e mais sua crença na relação futuro e figura, num pacto pessoal centrada e acreditando friamente nos poderes ocultos e atração não só dominadora, mas também previsora como um feche de luz capaz de revelar o que está escrito no mundo escuro do futuro.
Ela percebeu que no movimento intercalado das relações de previsão e realidade, havia uma onda diferenciada de resultados favorecendo um jogo de insinuações providas de impulsos de desejos inseguros e vontades obscuras.
Ela não estava insegura, apenas balançava a cabeça e as mãos relaxando a tensão do corpo e da mente após receber as previsões contidas nas cartas.
Se outra pessoa me contasse, eu não acreditaria, mas foi ela que me contou, já que não era um sonho e sim uma maneira de manusear o desconhecido, um meio sedutor e curioso de ultrapassar os obstáculos descartadores que estão escondidos no universo ao mesmo tempo sedutor e cruel, no qual estamos localizados querendo pegar tudo que está ao nosso alcance e por outro lado somos focados por outros com o mesmo desejo.
As dúvidas na vida da garota começaram a partir do momento em que ela conheceu uma velha cartomante, que era uma mulher serena no equilíbrio das palavras, porém trazia um olhar astuto como de uma raposa na guarda da sua ninhada.
Os segredos evocados na leitura das cartas eram profundos, carregados e temperados num tom do além, parecendo ser produto de uma força maior que a própria verdade, ou seja, trazia um poder sobrenatural de colher fontes futura como se estivesse colhendo frutos maduros em uma árvore da vida.
Olhando aquelas cartas compridas e velhas sendo manuseadas pelas mãos hábeis daquela cartomante parecem ser inofensivas e mesmo parecendo estar segura naquela consulta divinamente proibida, alguma coisa a assustava, pois aquelas cartas compridas e velhas pareciam ter sido usadas por uma eternidade de tempo, já que estavam gastas, desbotadas e até rasgadas.
Que poderes estariam escondidos naquelas figuras? Uma vez que era impossível escolher a carta previsora do destino, mesmo porque elas eram retiradas aleatoriamente, uma a uma, tal quais os dias que com suas diferenças envolve-nos em suas instabilidades.
Pensar que os conflitos da vida dela começaram em cartas embaralhadas por uma cartomante seria um erro, primeiro que não eram simples cartas, não tinha como duvidar, tudo estava escrito nelas. Segundo porque a velha cartomante lia cada detalhe e o que mais impressionava era que em cada carta havia uma figura diferente da lua descrevendo e desvendando os sentidos da vida dela em suas várias faces e fases.
Os dias rolam como a lua e esse girar constante às vezes nos deixa tontos, uma tontura parecendo quase proposital, na qual a lua com sua força magnética influi indiretamente nas nossas vidas por meio dos dias , nos conduzindo intercaladamente expostos às forças do bem ou do mal e para termos consciência de tal condução momentânea que nos domina, basta fazer uma reflexão momentânea pessoal.
A solidão e o desencanto fazem com que ela se afastasse das cartas, mas o coração a trouxe de volta, pois a paixão traidora traz em sua calda uma carência insaciável de atenção, desestabilizando momentaneamente os compassos do coração. Os dias escurecem em tempestades de dúvidas, embriagando com dificuldades e cambaleando nos passos antes firmes, porém agora medrosos e inseguros.
Há tempos ela não recorria às cartas, mas esta insegurança no amor gerou um estado de desconfiança insuportável, no qual o ciúme corrói os pensamentos e as atitudes, consequentemente toda essa agonia a levaram de volta às mãos da velha cartomante.
Se antes o local era assustador, agora é muito mais, pois parecia estar esquecido pelo mundo, já que havia apenas uma mesa e pouca luz, nem as cortinas eram abertas, porém não era isso que interessava à garota, ela queria informações além da sua visão.
A velha cartomante sentou-se calmamente à mesa, serena e com toda a tranquilidade abriu a gaveta e pegou as velhas cartas misteriosas. No exato momento em que as cartas foram pegas, algumas caíram de sua mão sendo imediatamente ignoradas pela mulher, como se não fizessem parte do destino ou fossem descartadas pelo próprio futuro.
As velhas cartas são embaralhadas tranquilamente como se tudo já estivesse previamente escrito. A primeira carta é retirada e colocada sobre a mesa, nela estava estampada a lua plena e bela, cheia de vida entre as nuvens e uma rareada neblina. Ela faz uma pequena observação na carta e interpreta em poucas palavras:
- Houve um pequeno espaço de tempo em que você permaneceu sozinha e reservada, mesmo assim estava radiante e feliz, porém agora quer abrir as cortinas do futuro.
Outra carta foi retirada e colocada na mesa, uma carta velha e rasgada faltando um pedaço. Nesta carta a lua mostrava apenas metade do rosto, parecia manter-se escondida observando a figura de um sol com raios frios e congelados.
- Você está apaixonada por alguém, porém a distância impede de sentir o seu calor.
- Está faltando um pedaço da carta. Como vou saber o que estava nesse pedaço?
- A carta é explícita e clara. Essa parte você já conhece, ou seja, é a terceira figura.
- Então é certo que existe a terceira figura?
- Você sabe a resposta, agora vou virar a última carta.
Outra carta rasgada faltando um pedaço, nela a lua estava crescente e brilhante, o sol timidamente lançava raios de calor sobre ela, porém faltava quase metade da carta.
- Ele gosta de mim?
- gosta.
- E o restante da carta? Como vou saber o que tinha na parte que falta?
- A carta é transparente nos segredos da vida, se não é mostrado, é porque você sabe o que está lá.
- Leia mais uma. Por favor!
- Não posso! Se eu fizesse isso, estaria traindo o meu pacto com o futuro oculto.
Ao levantar da mesa uma carta caiu da mão da velha cartomante, talvez por dificuldade e deficiência dos movimentos das mãos idosas e doentes. Ela imediatamente falou para a garota:
Não pegue essa carta! Porém a garota aproveitando a oportunidade rapidamente se apossou da carta e quando olhou, viu que havia apenas a figura da lua, o sol havia desaparecido de seu futuro.
Ela olhou profundamente para os olhos da velha cartomante e falou:
- A senhora é uma mentirosa! Eu não acredito nessas cartas velhas e rasgadas. Eu devia jogá-las no lixo. Depois se levantou, pegou sua bolsa e saiu apressadamente daquela casa misteriosa e escura. Ela caminhou durante um tempo e resolveu voltar para pagar e pedir desculpas.
Num pensamento confuso em idéias embaralhadas ela voltou à velha casa, ao chegar encontrou apenas a casa velha e abandonada. Não havia ninguém na casa. Qual seria a verdade de tudo aquilo?
Sem encontrar ninguém, ela foi embora caminhando pela calçada, na qual se encontrava uma mulher velha pedindo esmolas, passou sem dar atenção, depois parou, pensou e voltou. Ao chegar àquela senhora, tirou dinheiro da bolsa e entregou nas mãos dela dizendo:
- Aqui está o pagamento da consulta às cartas. Agradeceu e foi embora.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
Zip...Zip...Zip...Zzipperr
domingo, 6 de novembro de 2011
Jogando pedras no lago
Jogando pedras no lago
O cheiro forte de mato molhado de sereno parece um combustível poderoso para o sangue e a mente. O desejo poderoso de brincar que flui de dentro da gente é tão grande que dá inveja dos animais silvestres, essa liberdade de correr, subir nas árvores e nadar nas águas desse pântano maravilhoso.
Sinta o barulho encantador das águas da cachoeira.
Chuaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!...Um barulho infinito que parece conversar com a gente. Parece entender a gente, nossos sentimentos, vontades, desejos como se fossemos parte integrante desse mundo encantado e semi-virgem, só não é absolutamente virgem porque penetramos nesse útero de flores e matas selvagens plenamente intocáveis.
A noite fria perde o sentido, o frio se perde no sentido, sem sentido o frio se perde na noite, a mesma noite que faz a gente se perder, se perder no calor do amor. A noite fria se vai e na medida em que se despede o quadro visual assume cores vivas, algumas dominantes e outras passivas.
O espelho d’água faceado sobre o lago reflete o brilho dos raios solares iluminando a imensidão de imagens verdes e suas sombras. Quebrando essa grande vidraça natural, brincamos como crianças jogando pedras em saltos deslizantes. Cada salto alcançado pela pedra nos dá direito a um pedido.
A menina do pântano caminha no meio das águas correntes claras e límpidas, agacha no meio da água e pega uma pedra branca com listras pretas, volta e senta ao meu lado na grande pedra dos desejos com um olhar fixo, penetrante e vitrificado no grande lago. Aquela meditação determinada parecia um pacto entre seus desejos e a grande lagoa da cachoeira, ela parecia estar decifrando e entendendo o linguajar das águas.
A névoa da cachoeira deixou seus cabelos molhados, o sorriso úmido deixou sua boca mais saborosa, no olhar havia um desejo oculto em segredo e o seu vestidinho amarelo colado ao corpo fazia dela uma linda flor do pântano, bela, charmosa, perfumada e atraente, seu desejo era tão profundo que parecia ter brotado e se tornado parte integrante daquele paraíso verde.
Ela lançou a pedra que deu três saltos, sorriu como se estivesse realizada em seus desejos e depois mergulhou nos braços e abraços das águas da lagoa, ao subir à tona parecia uma grande flor enfeitando o verde refletido em vários tons.
Não sei qual foi os desejos dela, mas rapidamente peguei uma pedra na margem da lagoa e lancei naquele espelho verde. A pedra deu apenas um salto, nem pensei e pedi o que eu mais desejava: Nunca mais quero sair desse lugar e me tornar parte desse pântano maravilhoso. Depois mergulhei nas águas do lago me entregando aos braços da natureza.
Mergulhamos e começamos a fuçar nas pedras no fundo do lago, lá encontramos duas pedras em forma de coração, com um leve toque demos vida a elas, pois daquele momento em diante, aquelas pedras passaram a ser o símbolo do nosso amor.
Saímos da água e corremos brincando na mata como animais selvagens procurando morangos silvestres vermelhinhos, madurinhos e gostosos, eles deixam nossos beijos muito mais doces e gostosos.
Não somos mais estranhos naquele lugar, nos tornamos parte e completamos sua beleza natural, a nossa forma de amar se tornou muito mais selvagem, porém muito mais carinhosa e gostosa.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
ZzipperR
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
A Fera e a Bela
A Fera e a Bela
Numa cidade calma do interior, onde todos sabiam tudo o que acontecia, não tinha como não notá-la, pois ela era bela como uma flor perfumada e atraente, por onde ela passava todos olhavam.
Sempre caminhando atenta e apressada, parecia até que estava sendo seguida. Ela não queria ser seguida, pois seu coração batia forte por uma Fera com o coração doce e que chorava muito.
Bela andava rápido. Às vezes até corria e sumia no silêncio da noite, parecia correr em segredo num sonho só dela. Ela corria, corria muito até chegar a um lugar quieto parecendo uma caverna. Parava na porta e respirava fundo chegando a temer, mas entrava e lá encontrava a Fera.
A Fera quando via a Bela chegar ficava quietinho, só olhando e apreciando os seus olhos lindos arregalados de medo, seu sorriso atraente, sua atenção e seu carinho. Ele olhava a Bela charmosa, aquela menina linda e chorava. Depois pedia:
- Bela! Fica perto de mim, não me abandone. Eu posso ser uma Fera, não ser tão lindo quanto você, mas te dou meu carinho.
A Bela olha aquela linda Fera. Teme, mas se aproxima. Pega a sua mão, senta pertinho e fala:
- Sabe Fera! Não é mal ter um amigo fera, quando a gente sabe que ele é Fera.
- Sabe Fera! Como é bom saber que quando eu choro. Você também chora.
- Sabe Fera! Eu fico pensando como a vida é interessante. Eu sou Bela, você é uma Fera e estamos aqui juntinhos, falando, pensando e brigando, mas estamos juntos.
- Sabe Fera! Você é uma bela Fera com suas belezas, olhar feroz, jeito feroz, mas manso, muito mansinho. Eu sei que é!
- Vem Fera! Vamos gritar bem alto. Eu com meu grito belo e você com seu grito feroz, pois a nossa amizade o tempo não vai apagar.
- Vem Fera! Já que não podemos correr na vida, vamos correr no sonho, correr no escuro, correr gostoso, correr em paz.
A Fera olhou a Bela que estava com um olhar feroz, que pegou em sua mão e puxou para fora da caverna. Depois saíram correndo no escuro, ninguém vê, mas eles estão lá, correndo juntos, pensando juntos e confortando um ao outro, mesmo um sendo a Bela linda, charmosa, atraente e carinhosa e o outro sendo a Fera, não duvide de sua beleza, pois tem uma beleza feroz interior, que trás muito amor e carinho para confortar a linda Bela.
Naquela pequena cidade, ninguém mais viu a Bela, mas todos sabem que ela encontrou uma Fera, se encantou com seu carinho e hoje corre no escuro com ele. Se você olhar com atenção, verá passar correndo na escuridão, a Fera e a Bela.
Paulo Ribeiro de Alvarenga
Zip...Zip...Zip...ZzipperR
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O beijo de um estranho
O beijo de um estranho
Eu acordei muito cedo e quando saí para correr estava um nevoeiro muito forte, a neblina era tão intensa que ficava impossível enxergar a dois metros de distância, mesmo assim saí para correr.
O sereno estava tão forte que chegava a assustar, pois trazia uma situação que levava a uma sensação constante de perigo, porém também tinha uma beleza incomum, parecendo estar num sonho oculto, numa privacidade total onde ninguém invadiria com olhares, pensamentos ou julgamentos.
Comecei a fazer aquecimento antes de correr e escutei passos correndo em minha direção, então mantive silêncio para não ser visto. Ao se aproximar, eu percebi que era uma garota correndo na cortina de névoa, que como um vulto se aproximou parando bem próxima a mim.
Silenciosamente me aproximei dela, tapei os seus olhos e percebi ela tremer de medo, então falei:
- Fique tranquila! Eu não farei nada de mal para você, apenas te darei um beijo estranho nesse mundo estranho, um beijo do estranho da neblina.
Ela tremia de medo. Eu me aproximei da sua boca tremula, amedrontada e fria, mesmo assustada eu a beijei rapidamente, depois perguntei:
- Vamos correr menina estranha?
Saí correndo e ela virou rapidamente vendo o meu vulto desaparecendo no meio da neblina forte, depois saiu correndo atrás de mim.
Naquele nevoeiro forte, eu escutava os passos dela correndo ao meu lado, querendo a minha companhia, se aproximando e se sentindo segura ao meu lado.
Nós corríamos cadenciados, mas não conseguíamos ver o outro claramente. Conseguíamos ver apenas um vulto correndo ao lado e escutávamos o som das passadas fortes no asfalto frio. Éramos dois estranhos correndo juntos no meio da névoa úmida, mas querendo o calor humano do outro, mesmo que distante.
O som de cada passada soava como uma palavra em nossos ouvidos e soava como uma canção de fundo em um sonho vivido em meio à neblina, que nos levava como pássaros voando no meio das nuvens.
De repente ouvi mais passos, havia mais uma pessoa correndo no meio do nevoeiro, nosso sonho estava sendo invadido, havia um intruso no caminho e o silêncio calou os passos dela, pois eu ouvia apenas os meus passos. Então parei e resolvi voltar para entender o que acontecera, mesmo não conseguindo enxergar, voltei.
Eu voltei calmamente em passos cautelosos tentando encontrá-la, mas não consegui, talvez ela tenha mudado de direção e caminhado em outro rumo, pois voltei até o ponto de partida e não encontrei mais sinal dela.
Será que tudo isso realmente aconteceu ou foi um sonho no meio da neblina, mas se aconteceu eu fico pensando: No meio da neblina forte ela recebeu um beijo, mas não conseguiu ver o rosto estranho que a beijou, só sabe que gostou, pois foi um beijo estranho como nunca havia beijado, foi um beijo de um estranho que trouxe uma sensação estranha e a partir desse beijo ela também se tornou uma estranha no meio da neblina forte.
Eu continuei correndo no meio da neblina até amanhecer na esperança de encontrá-la. O sol apareceu e levou a neblina embora tirando as minhas esperanças de encontrá-la. Clareou o dia e agora enxergo nitidamente, mas quando penso nela, apenas lembro-me de uma estranha correndo em meio a um nevoeiro muito forte e sinto um gosto estranho na boca.
Sinto o gosto do beijo estranho dela.
Zip Zip...Zip...ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
domingo, 2 de outubro de 2011
O cego e a prostituta
O cego e a prostituta
Como é estranho o caminho das pessoas, alguns nascem em berço de ouro, outros têm caminhos coloridos e fáceis de viver, mas ela não, ela era pobre e morava numa cidade pequena do interior, nem sei o nome da cidade, mas o dela eu sei, ela se chamava Esperança.
Esperança era linda desde criança, tinha cabelos encaracolados e lindos olhos azuis, que chamavam a atenção.
A menina era como uma flor desabrochando e cada dia ela ficava mais linda. Mesmo garotinha já chamava a atenção dos homens.
Sem conhecer as armadilhas da vida, um dia Esperança com o seu coração inocente e bom se engraçou por um homem muito mal, que abusou da sua inocência e a levou embora daquela cidade para sempre.
Aquele homem ao qual ela entregara o seu coração de menina nunca cuidou dela, apenas abusava e judiava. Com o passar do tempo os olhos da menina começaram a ficar tristes e o seu coração infantil começou a odiar a vida, sem esperanças ela resolveu ir embora partindo no silêncio da noite, escondida e só com a roupa do corpo.
Seus olhos ficaram tristes e seu coração estava magoado, mesmo assim ela continuava linda, atraente e bela. Desiludida e sem ter como sobreviver, ela resolveu vender seu corpo para o prazer.
Com o passar dos dias Esperança descobriu que não era feliz e que ninguém a deixava feliz. O sorriso de menina a vida levou, sua alma não tinha mais paz, desesperada queria acabar com a própria vida, pois não tinha mais esperanças.
Um dia a vida resolveu iluminar o seu destino, foi no exato momento em que ela percebeu a dificuldade de um cego para atravessar uma avenida. Ela prontamente pegou em seu braço e o guiou até o outro lado. Quando chegou ao outro lado o cego falou:
- Eu sinto o seu coração apertado e descompassado, também sinto tristeza nele, mas ele não é mal é um coração bom e caridoso. Ela contou a sua vida para o cego, que falou:
- Eu moro sozinho, tenho um bom emprego e lhe acolho com todo o respeito, até você encontrar um caminho na sua vida, se não achar pode ficar para sempre.
A vida sorriu para Esperança, os seus olhos não eram mais tristes e o seu coração batia feliz, vivendo feliz ela parecia mais bela.
O homem cego sempre a respeitou e fazia tudo por ela, não deixava faltar nada. Ela vivia num ambiente de amor, harmonioso e carinhoso.
Num momento de fraqueza e de ilusão Esperança tornou a vender seu corpo, não por necessidade, nem ela sabia por quê? Queria dinheiro.
Ela não suportou trair a confiança do cego e contou para ele, que falou:
- Esperança! Um dia você foi os meus olhos para atravessar a avenida, hoje eu sou os seus olhos para atravessar a vida. Eu não posso te abandonar no momento que você mais precisa de mim. Hoje você é cega e quem enxerga sou eu. Por favor! Abra os seus olhos que eu preciso de você comigo, pois hoje você é muito importante para mim e eu te amo muito.
Esperança abriu os olhos para a vida, olhou para o homem cego descobrindo como ele era lindo e nunca exigiu nada dela. A partir daquele momento ela entregou o seu carinho e seu amor para ele.
De repente a vida da menina de cabelos encaracolados iluminou com o brilho do amor deixando tudo mais claro para ela e seguiram juntos de mãos dadas por um caminho feliz.
Enfim Esperança encontrou o caminho do amor e da felicidade.
Zip...Zip...Zip...ZzipperR
Paulo Ribeiro de Alvarenga
Assinar:
Postagens (Atom)



